LUGARES / HISTÓRIA

O QUE PODE CONHECER E VISITAR

Mosteiro de Santa Maria de Paiva

- breve apresentação e nota histórica -
 Percurso histórico:
O mosteiro da Ermida de Santa Maria de Paiva, ou simplesmente Ermida de Paiva, era um pequeno mosteiro situado no vale do rio Paiva, actualmente localizado no território do concelho de Castro Daire. Pertencia à Ordem Premonstratense, uma ordem de cónegos regulares que seguiam a Regra de Santo Agostinho, fundada em Prémontré, localidade no norte de França, por S. Norberto (1082-1134), por volta de 1120 e aprovada pelo papa Honório II em 1126. Entrou na Península Ibérica pela Catalunha, e expandiu-se pelos vários reinos cristãos peninsulares nos séculos XII e XIII.
Em Portugal, naquele tempo um reino jovem, teve apenas dois mosteiros: Santa Eulália de Vandoma, diocese do Porto (no actual concelho de Paredes), e o primeiro, que foi Santa Maria de Paiva, na diocese de Lamego. Actualmente, as igrejas destes mosteiros são igrejas paroquiais: no caso de Vandoma, desde, pelo menos, o início do século XVI; no caso da Ermida de Paiva, de forma definitiva após o falecimento do último religioso, em 1570.
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Sabe-se que em 1145 já habitavam na «Ermida de Santa Maria e São Miguel de Riba de Paiva» um certo D. Roberto e alguns companheiros, a quem o primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques, faz nessa altura doação de uma herdade e dos seus rendimentos respectivos na Foz do Douro. O lugar onde essa comunidade se estabeleceu já teria origens eremíticas, isto é, é muito provável que desde longa data aí vivesse gente que buscava Deus na solidão, na reflexão, na contemplação.
A palavra «Ermida», significando «pequena igreja», tem origem na palavra «Eremita», a pessoa que segue esse modo de vida. É muito possível também que a pequena ermida de Santa Maria de Paiva se erguesse, desde tempos antigos, num sítio onde tenha existido um santuário ou um pequeno templo pré-cristão, e que tenha sido cristianizado no começo da Alta Idade Média, como aconteceu em milhares e milhares de locais por toda a Europa, Norte de África e Médio Oriente. Na documentação medieval existente, como por exemplo nas Inquirições de 1258, o mosteiro da Ermida é quase constantemente referido como «eremitério de D. Roberto».
O grupo de D. Roberto (que eventualmente seria ele próprio francês, mas não se pode confirmar a hipótese com segurança) seguia a Regra de Santo Agostinho, mas só décadas mais tarde, em 1214, é que podemos dizer com segurança que a comunidade da Ermida de Paiva tinha adoptado os costumes de Prémontré, ou seja, estava integrada no conjunto da Ordem Premonstratense.
A comunidade da Ermida de Paiva teve apoio régio e de particulares ao longo do tempo, através de doações de propriedades, atribuição de isenções e privilégios, concessão de cartas de foral e atribuição do serviço pastoral em algumas igrejas (S.
João de Pendilhe, Santa Maria de Baltar [Cabril], ou S. Pelágio [dito «S. Paio»] de Alhões). Este apoio indica que o mosteiro da Ermida terá tido um papel de relevo no povoamento e na assistência religiosa na região, nesses tempos recuados. No entanto, tratou-se sempre de um mosteiro de pequena dimensão, de meio rural, e que foi sempre modesto. Perto dele, um troço do rio Paiva ainda hoje é conhecido como "Poço dos Frades", podendo indicar um lugar onde os monges se iriam banhar ou então pescar; ou uma e outra coisa.
Santa Maria da Ermida também não escaparia aos problemas que de uma maneira geral afectaram os estabelecimentos monásticos no fim da Idade Média e começo da Idade Moderna (séculos XV-XVI): poucos efectivos, intromissão de poderes seculares na gestão de rendas e patrimónios (nomeadamente da Coroa), nomeação de priores sem ligação ao mosteiro. Por exemplo, em 1466 D. Afonso V doa o mosteiro e respectivos direitos de padroado ao seu sobrinho, conde de Vila Real. Uma situação de decadência que se prolongou por pouco mais de um século, até 1570, quando morre o último religioso de Santa Maria da Ermida de Riba Paiva.
 Breve apresentação artística:
O mosteiro da Ermida de Paiva insere-se no estilo artístico românico, que tem as suas raízes no final da Alta Idade Média e se desenvolveu sobretudo ao longo do século XI até ao começo do século XIII. Na Península Ibérica foi sobretudo divulgado pelos monges da poderosa Ordem de Cluny, que a partir da segunda metade do século XI deram muitos bispos às dioceses ibéricas, dentro da criação definitiva de uma mentalidade de Cruzada e da integração da Península Ibérica na Cristandade de rito romano, suplantando o velho rito visigótico (ou hispânico) e as suas formas artísticas, que vinham de antes da invasão muçulmana do século VIII e das quais temos hoje um reduzido número de exemplos.
O românico é assim o estilo artístico medieval preponderante nos territórios onde Portugal se originou, a norte da linha do Tejo, onde a fronteira do reino se fixaria no meado do século XII. No mundo rural são dominantes as igrejas simples, como é o caso da Ermida de Paiva; a nobreza local e os primeiros reis, desejando incrementar o processo de repovoamento (ou seja, na realidade, a valorização e ordenamento dos recursos locais), incentivaram fundações deste tipo. Este género de construções é igualmente testemunha das dificuldades económicas destas regiões e da relativa escassez da sua população.
No caso de Santa Maria de Paiva, a parte principal que nos resta do antigo mosteiro é, claro está, a igreja. Foi sagrada em 1214, tendo a sua construção demorado décadas, como sucedia na maior parte das vezes naqueles tempos. É românica e é perfeitamente "rural" na sua modéstia: uma nave, coberta de madeira, e uma abside (ou cabeceira, onde se situa no interior da igreja a capela-mor) de pequenas proporções e abobadada. Há que destacar o facto de a cabeceira da igreja da Ermida de Paiva ser o único exemplar em Portugal de uma cabeceira românica poligonal. Do velho e pequeno mosteiro Premonstratense restam ainda e somente algumas arcadas do claustro, em ruína, do lado sul da igreja.
Igualmente desse lado, mas junto à cabeceira da igreja, no exterior, encontra-se um túmulo em granito, hoje sem tampa, que a tradição diz ser o túmulo de frei Roberto, uma tradição que é de algum modo reforçada pela inscrição que se encontra acima desse sarcófago, gravada na parede exterior da cabeceira, que nos diz que "padre Roberto" faleceu no mês de Outubro da "Era de 1198", isto é, no ano de 1160 (na Península Ibérica durante a maior parte da Idade Média, e até 1422 em Portugal, o tempo era contado pela chamada "era de César" ou "era Hispânica", e temos de subtrair 38 anos às datas que encontramos nos documentos).
Como sucede habitualmente na arquitectura românica, na Ermida de Paiva encontramos capitéis e modilhões historiados, ou seja, com figuras neles representadas. Ainda que se possa identificar o que neles se encontra figurado, é sempre difícil fornecer uma interpretação para as figuras. Como se sabe, na arquitectura medieval essas representações figuradas podiam ter um significado mais imediato, visando de forma rápida e clara a instrução religiosa dos fiéis (na esmagadora maioria iletrados), mas também, e diria eu, sobretudo, um significado mais oculto, por isso chamado "esotérico", escondido. Escondido em especial aos nossos olhos de hoje, porque não o seria tanto aos olhos daqueles que viam essas figuras há muitos séculos, quando muitas delas seriam até pintadas, como acontecia na maior parte dos edifícios medievais e que hoje só podemos em muitos casos imaginar.
Assim sendo, essas figuras, essas representações, ligam-se a cultos ancestrais, vindos da mais remota Antiguidade, de que o Cristianismo se apoderou em muitas situações, tornando suas. Lembremo-nos de certas festividades cristãs que têm origem bem mais antiga, como as festas de S. João, as bênçãos de colheitas, para não falar do próprio Natal. Vemos assim figuradas na arte medieval, e em especial na arte românica, que como disse mergulha as suas raízes ainda no fim da Alta Idade Média, simbologias e crenças que se ligam à fertilidade (dos campos e dos homens), à sexualidade, à invocação de todas as forças ocultas para que propiciem uma boa existência.
Um aspecto bem conhecido (porventura o mais conhecido) da Ermida de Santa Maria de Paiva são as siglas, as marcas, que cobrem as suas paredes, e que encontramos também nas dependências do antigo mosteiro, hoje em ruína ao lado da igreja. Na realidade, essas marcas são comuns a muitos edifícios provenientes da Idade Média, e encontramo-las por exemplo em vários outros lugares na região (Resende, Tarouca, Ucanha, Salzedas); habitualmente, interpretam-se como sendo "marcas de canteiro", isto é, marcas dos operários que assentavam as pedras durante a construção, para depois poderem ser pagos. Seriam pagos à peça, de acordo com o número de pedras que trabalharam, e por isso deixavam nelas a sua marca para se poder fazer a contagem e proceder-se ao pagamento.
Santa Maria de Paiva tem uma enorme profusão destas marcas, tanto é que ficou conhecida como «O templo das siglas», desde o trabalho de Araão de Lacerda com o mesmo nome, em 1919. E é essa variedade de marcas no caso da igreja da Ermida que dá que pensar (e a igreja da Ermida tão pouco é caso inédito, neste ponto), que afinal podem não ser, ou não ser apenas, as tais "marcas de canteiro", mas, tal como acontece com as figurações nos capitéis e nos modilhões, tratar-se de uma linguagem
esotérica, cujo significado último e mais profundo nos escapa ainda. Vemos representadas, nas siglas, pentagramas, espirais, símbolos da sexualidade masculina e feminina, relâmpagos, círculos, cruzes, entre outros símbolos. Uma autêntica reunião de hieróglifos que pode realmente ter uma leitura, um sentido, e eventualmente até se poderem ler de acordo com a maneira como estão distribuídos nas paredes; mas como disse, esse significado mais oculto continua a escapar-nos.
Luís Filipe Pontes, Setembro de 2018